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Técnico de Segurança do Trabalho: Uma Crise de Pertencimento e Valorização


O Técnico de Segurança do Trabalho é, sem dúvida, um dos pilares invisíveis da engrenagem produtiva. Invisível não por falta de relevância, mas porque sua presença, muitas vezes, só se torna lembrada diante do caos: o acidente, a morte, a estatística que assombra relatórios e manchetes. Enquanto a lógica do lucro enxerga o trabalhador como peça substituível, o Técnico de Segurança permanece como guardião da vida, resistindo na linha de frente contra a naturalização do risco e da dor.


Entretanto, esse guardião atravessa hoje uma profunda crise de pertencimento e valorização. A sociedade o reconhece pouco, as empresas o veem como um custo operacional e, dentro de muitos ambientes de trabalho, sua autoridade técnica é relativizada por gestores que ainda confundem prevenção com burocracia. O resultado é um paradoxo cruel: aquele que luta para preservar a dignidade e integridade do trabalhador tem sua própria dignidade profissional questionada.


A crise de pertencimento nasce da desvalorização simbólica. Quantas vezes o Técnico de Segurança não se vê reduzido a um mero "preenchedor de planilhas"? Quantas vezes sua palavra, fundamentada em conhecimento técnico e em legislações que salvam vidas, é silenciada pela lógica da produção imediata? Esse descompasso entre a importância real da profissão e o espaço efetivamente concedido a ela gera uma sensação de isolamento, como se a luta pela vida fosse um combate solitário em meio à engrenagem do capital.


Ao mesmo tempo, a crise de valorização é estrutural. Baixos salários, ausência de planos de carreira consistentes, pouca representatividade em instâncias decisórias e a fragilidade no reconhecimento social do papel desempenhado pelo Técnico de Segurança corroem não apenas a profissão, mas também a efetividade da prevenção. Mas como esperar que a sociedade respeite a cultura prevencionista, se ela própria negligencia quem a sustenta?


É preciso compreender que o Técnico de Segurança do Trabalho não é um apêndice da organização,  ele é um eixo. Ele não é burocracia,  é ciência aplicada, é ética em movimento, é a ponte entre o humano e o produtivo. Desvalorizá-lo significa fragilizar a espinha dorsal da prevenção e perpetuar um ciclo de acidentes que poderia ser rompido com políticas de respeito e inclusão profissional.


O resgate desse pertencimento passa por uma mudança cultural e institucional. Significa reconhecer que a saúde e a vida do trabalhador não podem ser moeda de troca diante de metas produtivas. Significa conceder ao Técnico de Segurança voz ativa, autonomia técnica e condições dignas para exercer sua função. Significa enxergá-lo não como “o chato que cobra EPI”, mas como o profissional que impede que o lucro seja manchado por sangue. A crise não é apenas da categoria, mas da própria sociedade. Uma sociedade que não valoriza seus guardiões da vida é uma sociedade que escolhe conviver com a morte anunciada. Valorizar o Técnico de Segurança do Trabalho é, no fundo, valorizar a vida em sua essência, é reafirmar que nenhuma meta, nenhum produto, nenhum índice é mais valioso do que o ser humano que dá sentido a tudo isso.


Estimativas conjuntas da OMS e da OIT mostram que milhões de mortes anuais são atribuíveis a causas relacionadas ao trabalho (doenças crônicas e lesões), com fatores como longas jornadas, exposição a poluentes e condições térmicas extremas adicionando um fardo considerável à saúde ocupacional. Essas estimativas requalificaram o campo de mera “prevenção de acidentes” para gestão de determinantes complexos da saúde no trabalho. Levantamentos e séries temporais recentes apontam que o Brasil registra centenas de milhares de acidentes de trabalho formais por ano e milhares de óbitos e sequelas, com diferenças marcantes entre regiões, setores (construção, indústria, agropecuária, mineração) e faixas etárias. Estudos epidemiológicos e análises de séries temporais mostram que, apesar de quedas pontuais, a mortalidade e os indicadores de gravidade ainda são altos e demandam intervenções segmentadas por estado e setor. Além disso, pesquisas acadêmicas e análises de bases públicas (sinistros, sistemas de acidentes do trabalho) evidenciam subnotificação estrutural e discrepâncias entre dados oficiais e estudos locais, o que tende a mascarar a real dimensão dos danos e penaliza a formulação de políticas públicas e a alocação de recursos preventivos. Esse hiato de informação reforça a sensação de invisibilidade profissional vivida pelos Técnicos de Segurança. Como, afinal, esses dados se traduzem em crise de pertencimento e desvalorização?


Vivemos uma desconexão entre responsabilidade e reconhecimento, pois o aumento da complexidade dos riscos exigiria integração plena dos Técnicos em processos decisórios, mas na prática eles muitas vezes permanecem relegados a funções administrativas ou rotineiras, reduzidos a “preenchimento de formulários”, o que mina sua autoridade técnica e moral. Sem caminhos claros de carreira, remunerações compatíveis e participação em espaços de governança corporativa e estatal, o profissional tende a sentir-se desmotivado, com reflexos diretos na retenção de talentos e na qualidade das práticas preventivas. O pior de tudo, é que diante deste quadro, assistimos uma desvalorização profissional, uma menor efetividade preventiva, um numerário crescente de acidentes e custos como justificativa para enxugar recursos preventivos, enquanto, por outro lado, estudos sobre custos econômicos e sociais dos acidentes, mostram que investir em prevenção é sempre mais eficiente do que lidar com as consequências.


Esta crise não é simplesmente um problema corporativo, é um sintoma da forma como sociedades e mercados priorizam ou não a vida humana, pois não é fruto de um único fator, mas da sobreposição de contextos sociais, econômicos e culturais, portanto, resgatar esse pertencimento significa devolver dignidade a quem se dedica a preservar a vida em ambientes laborais, é afirmar que nenhuma economia, nenhum índice de produtividade e nenhum resultado empresarial podem ser construídos à custa do esquecimento daquilo que, em última instância, sustenta tudo: a vida humana.


Sandro de Menezes Azevedo

Presidente/SINTEST-SE

Presidente/ASPROTEST

Diretor de Formação Sindical e Qualificação Profissional/FENATEST

Idealizador/Safenation Brasil

Idealizador/CONGREST/FESP

 
 
 

1 comentário

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Sandro Azevedo
Sandro Azevedo
27 de set. de 2025
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Enquanto em outras áreas profissionais a coletividade é compreendida como condição indispensável para conquistas, muitos Técnicos de Segurança do Trabalho permanecem isolados, fragmentados em disputas locais ou em uma postura de indiferença diante das lutas coletivas. Essa ausência de coesão mina o poder de barganha, enfraquece sindicatos e desvaloriza o papel do profissional perante empresas e governos. A consequência é clara: a categoria continua sendo tratada como peça descartável do sistema produtivo, mais associada ao cumprimento burocrático de normas, do que reconhecida como protagonista da proteção pela vida. 😭

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