O Trabalho que Adoece Tem Cura
- Sandro Azevedo
- 16 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

O trabalho ocupa posição central na vida social contemporânea, sendo tradicionalmente associado à subsistência, à identidade e ao reconhecimento social, entretanto, nas últimas décadas, tem-se observado um paradoxo cada vez mais evidente, onde o mesmo trabalho que deveria promover dignidade e realização passou, em muitos contextos, a produzir adoecimento físico e mental. Diante desse cenário, impõe-se uma reflexão fundamental: o trabalho que adoece tem cura?
Do ponto de vista científico, o adoecimento relacionado ao trabalho não pode ser compreendido como fenômeno individual ou isolado. Estudos em Saúde do Trabalhador demonstram que a organização do trabalho, as jornadas extensas, a intensificação das metas, a precarização dos vínculos, a exposição a riscos físicos e a pressão psicossocial contínua atuam como determinantes centrais de doenças ocupacionais. Transtornos mentais comuns, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout, assim como doenças osteomusculares e cardiovasculares, apresentam forte correlação com ambientes laborais adoecedores. Assim, responsabilizar exclusivamente o trabalhador pelo seu adoecimento, representa um equívoco técnico e também ético.
A questão da “cura” deve ser compreendida de forma ampliada, pois em muitos casos, os danos à saúde são reversíveis, sobretudo quando identificados precocemente e tratados de maneira adequada. Intervenções clínicas, acompanhamento psicológico, reabilitação física e afastamento temporário podem restaurar a capacidade funcional e o bem-estar do trabalhador, contudo, tais medidas, quando aplicadas de forma isolada, tendem a ser insuficientes, isto porque, se o indivíduo retorna ao mesmo ambiente adoecedor, a recorrência do problema torna-se altamente provável.
Nesse sentido, a verdadeira cura do trabalho que adoece não reside apenas no tratamento do trabalhador, mas, sobretudo, na transformação das condições e da organização do trabalho. A ciência da saúde ocupacional é categórica ao afirmar que ações preventivas como gestão adequada das cargas de trabalho, fortalecimento da autonomia, ambientes seguros, relações laborais respeitosas e políticas de prevenção de riscos psicossociais, são mais eficazes e sustentáveis do que intervenções corretivas tardias. A cura, portanto, desloca-se do corpo individual para o sistema produtivo. Além disso, políticas públicas e marcos regulatórios exercem papel decisivo nesse processo, onde a fiscalização do cumprimento das normas de Saúde e Segurança, a promoção de programas de vigilância em Saúde do Trabalhador e o fortalecimento do acesso aos serviços de saúde, são elementos indispensáveis para romper o ciclo do adoecimento laboral. Sem esse suporte institucional, a responsabilidade recai injustamente sobre o trabalhador, aprofundando desigualdades e invisibilizando o nexo entre trabalho e doença.
Conclui-se, assim, que o trabalho que adoece pode, sim, ter cura, desde que essa cura seja compreendida como um processo coletivo, preventivo e estrutural. Curar não é apenas tratar os sintomas, mas modificar as causas que os produzem. É bem verdade que onde existe compromisso com a vida, com a dignidade humana e com modelos de trabalho saudáveis, é possível transformar ambientes adoecedores em espaços de promoção da saúde. Negar essa possibilidade, portanto, é naturalizar o sofrimento, e reconhecê-la é afirmar que o trabalho deve existir para sustentar a vida, e não para consumi-la.
Sandro de Menezes Azevedo
Presidente/SINTEST-SE
Presidente/ASPROTEST
Diretor de Formação Sindical e Qualificação Profissional/FENATEST
Idealizador/Safenation Brasil
Idealizador/CONGREST/FESP




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