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Praticamos Prevenção de Acidentes e Adoecimentos ou Apenas Ocupamos Cargos?


A prevenção de acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho constitui um dos pilares fundamentais para a sustentabilidade produtiva e para a preservação da vida humana no contexto organizacional. Entretanto, apesar do avanço normativo e da crescente disponibilidade de tecnologias de gestão, ainda é comum observar ambientes laborais onde a Segurança e a Saúde no Trabalho (SST) se limitam ao registro formal, à administração burocrática e à ocupação passiva de cargos. Diante desse cenário, emerge uma questão central: os profissionais e líderes organizacionais realmente exercem a prevenção ou apenas cumprem horário para assegurar o seu salário? Esta pergunta, embora incômoda, é necessária, pois evidencia a diferença crítica entre estar presente e ser efetivo.


Vale salientar que a prevenção real não é um ato simbólico, mas um processo contínuo e orientado por evidências, que exige comprometimento, tomada de decisão e capacidade transformadora. O simples exercício de uma função, sem reflexão crítica e sem intencionalidade, cristaliza práticas que pouco contribuem para a melhoria dos ambientes de trabalho e para a redução concreta dos riscos ocupacionais. Para desenvolver essa argumentação, é preciso compreender que a prevenção verdadeira depende de três dimensões fundamentais: responsabilidade profissional, maturidade organizacional e convergência entre propósito e prática.


A responsabilidade profissional implica reconhecer que o papel de quem atua na SST ultrapassa o cumprimento de tarefas rotineiras. Envolve interpretar contextos, analisar dados, influenciar gestores e propor soluções coerentes com a realidade de cada unidade produtiva. Profissionais que se limitam à repetição mecânica de atividades, como relatórios genéricos, inspeções formais e treinamentos padronizados, não promovem mudança, apenas reproduzem um ciclo administrativo que mascara vulnerabilidades.


A maturidade organizacional, por sua vez, traduz o grau de prioridade que a empresa atribui à prevenção. Companhias maduras reconhecem que acidentes e adoecimentos não são eventos aleatórios, mas consequências diretas de escolhas, investimentos, cultura interna e alinhamento estratégico. Organizações imaturas, ao contrário, tendem a responsabilizar exclusivamente o trabalhador, minimizar incidentes, atuar de forma reativa e aceitar riscos como parte inerente do trabalho. Nesses contextos, mesmo profissionais competentes acabam reduzidos a meros cumpridores de função, sem autonomia e sem condições de promover intervenções eficazes. 


A convergência entre propósito e prática representa o ponto mais crítico dessa discussão. É possível que profissionais afirmem que “fazem prevenção” porque realizam atividades associadas ao tema, no entanto, prevenção não se define pela atividade em si, mas pelos efeitos que ela produz. Um treinamento ministrado sem avaliação de eficácia não gera prevenção. Uma investigação de acidente que não alcança a causa raiz não gera prevenção. Uma análise de risco copiada de um modelo anterior, sem refletir a realidade operacional, não gera prevenção. Em outras palavras, a prevenção só existe quando há transformação mensurável das condições de trabalho e redução concreta das exposições. Nesse contexto, a ocupação passiva de cargos se revela não apenas ineficaz, mas também prejudicial. Ao naturalizar práticas burocráticas, as organizações deixam de reconhecer riscos emergentes, mantêm processos inseguros, ampliam custos invisíveis e fragilizam a confiança dos trabalhadores, onde a consequência final é a perpetuação de cenários que favorecem acidentes, doenças ocupacionais e degradação da cultura de segurança.


Em contrapartida, a prevenção efetiva exige postura ativa. Envolve analisar dados, escutar trabalhadores, construir planos de ação factíveis, mobilizar lideranças, mensurar resultados e revisitar intervenções sempre que necessário. Requer coragem para contestar processos inseguros, persistência para influenciar gestores resistentes e capacidade técnica para propor melhorias viáveis. Profissionais que atuam nesse nível não apenas ocupam um cargo, eles cumprem uma missão. Portanto, a distinção entre “fazer prevenção” e “cumprir horário” não é periférica, ela revela o compromisso ético e social das organizações e dos profissionais que as compõem. Diante disso, torna-se essencial que cada ator envolvido na SST, Técnicos, Engenheiros, Médicos, Gestores, Supervisores e Trabalhadores, faça uma autoavaliação sincera. Perguntas simples podem revelar cenários profundos, como por exemplo:  As ações de segurança têm impacto mensurável? Há redução de riscos evidenciada por dados? Existe aprendizado organizacional a partir dos acidentes? Trabalhadores participam ativamente das decisões sobre segurança? Se a resposta para essas questões é negativa, é provável que a prevenção esteja restrita ao papel.


Ante o exposto, concluímos que  a prevenção de acidentes e adoecimentos exige mais do que presença física, cumprimento de horário ou preenchimento de documentos, exige intencionalidade, competência, análise crítica e compromisso com resultados. A pergunta provocadora que intitula este artigo não busca acusar, mas despertar consciência. Ou a prevenção se torna uma prática real e transformadora, ou permanecerá como uma formalidade estéril, incapaz de proteger vidas e de promover ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis. A escolha entre ocupar um cargo e exercer um propósito cabe a cada profissional, e dela depende o futuro da Segurança e da Saúde no Trabalho.


Sandro de Menezes Azevedo

Presidente/SINTEST-SE

Presidente/ASPROTEST

Diretor de Formação Sindical e Qualificação Profissional/FENATEST

Idealizador/Safenation Brasil

Idealizador/CONGREST/FESP


 
 
 

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