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Fiscalizar não basta: A Urgência da Construção Cultural, da Humanização e da Civilidade nas Relações de Trabalho


A fiscalização das normas de Segurança e Saúde do Trabalho (SST) é, sem dúvida, um instrumento essencial para a proteção da vida e da integridade dos trabalhadores. No entanto, insistir exclusivamente no rigor normativo, sem investir de forma consistente na construção de uma cultura organizacional baseada na humanização, na civilidade e no respeito às relações de trabalho, revela-se uma estratégia limitada e, muitas vezes, ineficaz.


Não adianta exigir o cumprimento formal das normas se o ambiente laboral permanece marcado por práticas desumanizadas, relações autoritárias e pela naturalização do risco.

O debate sobre acidentes e doenças relacionadas ao trabalho tem sido, historicamente, reduzido a indicadores estatísticos, números de afastamentos, taxas de incidência e custos previdenciários. Embora esses dados sejam relevantes para o planejamento de políticas públicas e ações institucionais, eles não explicam, por si só, as causas estruturais dos danos inaceitáveis que continuam a adoecer, mutilar e matar trabalhadores diariamente. O problema central não reside apenas nos números, mas na negligência sistemática dos princípios que originam esses eventos, ou seja, a ausência de uma cultura de prevenção, a precarização das relações de trabalho e a banalização da dignidade humana no ambiente produtivo.


A lógica puramente fiscalizatória, quando dissociada de um processo educativo e cultural, tende a transformar a Segurança do Trabalho em um conjunto de obrigações burocráticas. Normas passam a ser vistas como entraves à produtividade, e não como instrumentos de proteção à vida. Nesse contexto, o uso de Equipamentos de Proteção Individual, a adoção de procedimentos seguros e o cumprimento de protocolos deixam de ser práticas internalizadas e tornam-se meras exigências impostas, cumpridas apenas sob o risco de sanções. Essa abordagem não constrói consciência, não promove engajamento e tampouco gera sustentabilidade preventiva. A humanização das relações de trabalho é um elemento central para a efetividade das políticas de SST, isto porque, ambientes onde imperam o medo, a pressão excessiva por resultados, o assédio moral e a desvalorização do trabalhador são, invariavelmente, mais propensos a acidentes e adoecimentos. Devemos ainda considerar que insegurança não nasce apenas da ausência de normas, mas da ausência de diálogo, escuta ativa e reconhecimento do trabalhador como sujeito de direitos, saberes e responsabilidades, portanto, sem civilidade nas relações laborais, a prevenção se fragiliza e o risco se normaliza.


Além disso, a construção de uma cultura de segurança exige investimento contínuo em educação, formação crítica e desenvolvimento humano. Treinar não é apenas ensinar procedimentos, mas fomentar senso crítico, responsabilidade coletiva e compromisso ético com a vida. É preciso que gestores, lideranças e trabalhadores compreendam que a prevenção não é um custo, mas um valor. Onde a cultura é sólida, a fiscalização atua como suporte e aprimoramento, onde ela é inexistente, a fiscalização atua apenas como remendo temporário.


Ignorar os princípios causadores dos acidentes e doenças laborais significa aceitar, de forma tácita, que perdas humanas sejam tratadas como efeitos colaterais do processo produtivo. Essa lógica é incompatível com qualquer sociedade que se pretenda justa, civilizada e comprometida com o desenvolvimento sustentável. A Segurança do Trabalho não pode ser reduzida a um checklist normativo, ela deve ser entendida como uma prática ética, social e humana, alicerçada no respeito à vida e à dignidade do trabalhador.

Portanto, fiscalizar é necessário, mas está longe de ser suficiente. O verdadeiro enfrentamento dos acidentes e doenças do trabalho passa, obrigatoriamente, pela transformação cultural, pela humanização das relações e pela construção de ambientes laborais pautados na civilidade, no diálogo e na valorização do ser humano. Somente assim será possível romper com o ciclo de danos inaceitáveis que ainda marcam o mundo do trabalho, e avançar para um modelo de desenvolvimento que coloque a vida acima de qualquer indicador produtivo.


Sandro de Menezes Azevedo

Presidente/SINTEST-SE

Presidente/ASPROTEST

Diretor de Formação Sindical e Qualificação Profissional/FENATEST

Idealizador/Safenation Brasil

Idealizador/CONGREST/FESP

 
 
 

1 comentário

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Sandro Azevedo
Sandro Azevedo
12 de jan.
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Infelizmente, no Brasil, a fiscalização isolada não tem sido capaz de reduzir de forma consistente os acidentes de trabalho, os adoecimentos ocupacionais e, muito menos, as mortes evitáveis. Essa realidade dura e persistente não pode mais ser tratada como um problema pontual ou meramente operacional. Trata-se de uma deficiência sistêmica, cultural e conjuntural, profundamente enraizada nas relações de trabalho e na forma como a Segurança e a Saúde do Trabalhador são compreendidas e praticadas no país.

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